Como era de se esperar, o Papo Animado com Carlos Saldanha lotou a Praça Animada. Um misto de curiosidade e admiração passava pela expectativa de ouvir o brasileiro que conquistou o mundo da animação e levou a Cidade Maravilhosa para salas de cinema no mundo inteiro. Retornando ao Anima Mundi para mostrar mais um sucesso de sua empreitada, Carlos Saldanha dividiu sua história e a da ararinha Blu conosco no último sábado.Há vinte anos morando nos Estados Unidos, Carlos deixou o Brasil e o Rio de Janeiro para fazer um curso de animação em Nova York. Ele queria aproveitar tudo o que já tinha aprendido em ciências da computação, mas unindo tais conhecimentos à arte. Ele contou que levou um susto ao se deparar com tantos computadores disponíveis para uso, uma realidade muito diferente da brasileira. Começou a trabalhar dia e noite até que um professor o convidou para fazer mestrado na escola, onde teve a oportunidade de aprender elementos teóricos e artísticos da animação. A maioria dos demais alunos vinha de uma formação em artes, mas não tinham tanta facilidade com a parte digital. Ainda no mestrado, ele fez dois curtas. Um deles, Time for Love, foi apresentado no Anima Mundi 2002. “Esse é um dos únicos curtas que eu considero 100% meus e é ótimo tê-lo como parâmetro para avaliar meu próprio processo de crescimento”.
Antes que acabasse o mestrado, um novo convite foi feito. Dessa vez para trabalhar na ainda pequena empresa de animação de um professor, a Blue Sky. O clima era de grande expectativa no mercado de animação já que o primeiro longa-metragem, Toy Story, estava para ser lançado. A companhia não dava lucro na época, mas eles decidiram apostar. Por um tempo fizeram apenas comerciais, inclusive o da Bell Atlantic, exibido na mostra especial Carlos Saldanha. Ele conta que nessa propaganda teve a oportunidade de transformar a complexidade em algo simples, característica que ele julgava ser uma das possibilidades mais atraentes da animação. O comercial fez sucesso e abriu portas para a empresa. Para Carlos isso significou uma transição do papel de animador para a área de direção de filmes animados. Tornou-se supervisor de efeitos especiais no projeto seguinte, o filme Joe e as Baratas.
Com os treze minutos das divertidas baratinhas animadas, a Blue Sky alcançou outro patamar na indústria de animação americana, que nessa época passava por grandes mudanças. Os estúdios começaram a se juntar para criar companhias maiores e havia um burburinho de que novas produções em animação surgiriam. A Blue Sky acabou sendo incorporada à Fox. Logo surgiu a oportunidade de fazer o longa A Era do Gelo. Carlos assumiu a tarefa de dirigir o filme em conjunto com Chris Wedge. Alguns meses antes do lançamento, com o trabalho já pronto, a expectativa era grande. Se o filme fosse um sucesso, infinitas portas se abririam, se fosse um fracasso, provavelmente o estúdio seria fechado. Para estimular o pessoal do estúdio, Carlos decidiu que seria uma boa hora para embarcar em um projeto divertido. A estrela do curta seria o esquilo Scratt, personagem que não existia no roteiro inicial de A Era do Gelo, mas que logo se tornou queridinho do público. Surgiu então o “Gone Nutty”, um episódio hilário sobre a má sorte de Scratt. O curta chegou a ser nomeado ao Oscar, mas Carlos infelizmente não levou a estatueta para a casa.
Após o sucesso de Era do
Gelo, a Blue Sky começou a fazer um filme atrás do outro. Robots, Era do Gelo 2 e 3, Horton Hear a Who, até que Carlos pode colocar em prática uma ideia que já vinha sendo sonhada há quase dez anos: um filme sobre o Rio de Janeiro. “Teve uma época em que começaram a surgir vários projetos sobre filmes na China, na França e eu comecei a me perguntar porque não um filme no Brasil”, contou o diretor. A ideia inicial foi fazer uma história sobre um pinguim. “Eu me lembro de ler muitas matérias de jornal sobre os pinguins que chegavam às praias cariocas no inverno e queria fazer um filme partindo daí”. Na trama, o animal acabaria preso por traficantes e teria que lutar por sua liberdade. Mas o filme seria menos uma busca para se livrar da prisão em gaiolas do que um processo de libertação emocional. O pinguim seria contagiado pelo calor carioca, o qual derreteria seu coração de gelo e o ensinaria a amar.Na época, no entanto, vários outros filmes sobre pinguins estavam sendo produzidos, então a ideia teve de ser descartada, mas a essência da história permaneceu. Depois eles pensaram na ararinha azul, “que não é carioca, e sim baiana, mas isso são detalhes de Hollywood”, contou Saldanha. Até que nasceu Blu, um gringo de coração. Saldanha conta que o filme Rio é bastante autoral: “eu queria poder reconstruir em animação a sensação que tenho quando chego na cidade depois de muito tempo fora do Brasil, como se fosse a visão de quem vê pela primeira vez”. No filme, Blu passa por um longo processo até descobrir a sua brasilidade e assumir o Rio como sua casa.
Saldanha queria um filme colorido, alegre, que mostrasse não só a beleza fotogênica da cidade, mas também sua diversidade cultural, com muita música e carnaval. A viabilidade comercial não podia ser esquecida. O filme deveria ser didático e capaz de falar com todos. “Eu não estava fazendo um filme só para o Brasil”, comentou ele, “era um filme para o mundo, então precisava pensar em elementos que fossem familiares, com as quais as pessoas pudessem se conectar, mesmo sem conhecer a cidade”. Isso foi um desafio durante a produção do filme inclusive, já que apenas três membros da equipe haviam estado no Rio. Saldanha contou que chegou a trazer um grupo de animadores para visitar a cidade e até saíram na Sapucaí. “Trouxe eles aqui para que pudessem descobrir suas próprias impressões e não só se pautar no que viam em livros”. A viagem acabou sendo super positiva e aumentou o número de adoradores da cidade, agora ainda mais engajados com a história de Blu.
Os personagens demoraram por volta de seis meses para ganhar vida. O design de Blu foi terceirizado, desenvolvido em vários países, principalmente na Espanha. Antes de animar os personagens é preciso gravar a voz dos atores que irão representá-los. As gravações são filmadas para que a expressão dos intérpretes possa também ser incorporada ao processo de animação. Depois disso, algumas esboços são feitos em 2D, só depois sendo passados para o 3D. Um dos elementos mais difíceis foram as penas. A equipe da Blue Sky desenvolveu um software específico para animação dos pelos dos animais de filmes anteriores como A Era do Gelo. Essa tecnologia foi adaptada para que a textura da pena das aves fosse o mais maleável possível. Cerca de cinco milhões de micro penas foram dispostas no corpo de Blu. Isso aumentava em muito as possibilidades da animação, tornando o animal mais real. Uma vez constituídos por completo, começavam outros desafios da animação. Uma das grandes perguntas era: “será que o Blu samba?”. Saldanha contou que seria difícil animar um pássaro que sambasse. E quem conseguiu a façanha não foi um brasileiro com muito samba no pé, mas sim um finlandês com muita habilidade nas mãos para animar o passarinho dançarino.
Desenhar os humanos também foi um desafio. Saldanha não queria que eles fossem animados de forma perfeita tal como é em Avatar, por exemplo. Ele queria algo que mantivesse o lúdico da animação. Por isso os personagens humanos assumiram um lado mais caricatural. Custa muito caro animar humano por humano, então seis tipos básicos foram criados e neles variavam cor da pele, das roupas e do cabelo. Esses seis tipos foram os personagens principais, mas também compuseram todos os figurantes. Para criar multidões, a ideia é a mesma. No desfile da Sapucaí, cerca de quinze ciclos foram necessários para constituir as quatrocentas mil pessoas presentes nas arquibancadas. Para criar a favela, um dos elementos pelos quais os animadores mais se interessaram, foi utilizado o mesmo esquema: seis conjuntos de casa eram desenhados em 3D e depois encaixados como um quebra cabeça para criar toda a comunidade. O nível de perfeição na construção do cenário era tanto que eles chegaram a desenvolver um software só para animar o chão de pedrinhas portuguesas da orla do Rio. Tudo milim
etricamente calculado. Ao longo do filme, inúmeras ferramentas tecnológicas foram desenvolvidas para lidar com alguns desafios de desenho gráfico.Carlos Saldanha uniu a sua habilidade com os computadores à paixão pela sua cidade de origem e ótimas ideias para fazer um filme alegre, divertido e interessante. Rio levou um pouco do Brasil ao resto do mundo e os fãs já estão na expectativa do segundo. Mas o diretor desconversa: “geralmente quando o filme que dá certo, pedem para fazer um segundo. Mas ainda não há nada fechado, nem uma ideia de roteiro. Nesse momento não estou com nenhum projeto, vou aproveitar as férias!”. Onde mais? Na cidade maravilhosa é claro.
cara! que bom foi ouvir a experiencia desse vencedor! um grande padrão para nós que queremos vencer nesse seguimento! Parabéns Carlos! que Deus te abençoe, e o leve para lugares mais altos!
ResponderExcluirUma pena que o Carlos não venha em são paulo,o público paulista iria adorar...
ResponderExcluirForam quase três horas incríveis, com relatos detalhados de toda a carreira do Carlos, que esbanjou despojamento, descontração e uma empolgação do início ao fim, neste contato direto com uma platéia e público interessadíssimo em suas estórias: a dos personagens de RIO e seus bastidores, ilustradas com fotos, sketches, equipe de ilustradores e designers da Blue Sky e da sua própria vida profissional e pessoal, que, enfim, mediante a estes brilhantes resultados obtidos na carreira, confundem-se de forma muito especial. Parabéns a toda a equipe do Anima Mundi, por ter, mais uma vez, colocado Carlos na programação!!!!!
ResponderExcluirBernardete Porfirio