A artista americana Miwa Matreyek estreou no Anima Mundi 2011 na última quarta. Com um trabalho incrível, ela arrancou aplausos sem fim da platéia que fez fila em frente ao Centro Cultural dos Correios. De uma delicadeza única, Mith and Infrastructure marcou a 19ª edição do Anima Mundi. Se você ainda não teve essa oportunidade, não perca mais tempo. Hoje e amanhã rolam três sessões de apresentações, a partir de 16h30. Cada performance tem em média 15 minutos e geralmente são realizadas duas por hora. Domingo acontecem as últimas duas sessões, começando às 15h30. Confira a entrevista que fizemos em parceria com os Animaníacos, da TV Brasil!1. Nos conte um pouco sobre a animação. Quando você começou a se interessar por essa área?
Miwa: Eu cheguei à animação inicialmente por meio de colagens, fazendo com que elas se movessem acompanhadas à música. Uma das primeiras inspirações foram os Irmãos Quay * , que trabalham muito com colagens e com stop motion. Tenho muito interesse na forma como música e animação trabalham juntas, em uma espécie de dança. Meu trabalho tem tendência a ser coreografado com a música.
2. De onde surgiu a ideia de unir performance e animação? Em que você se inspirou?
Parte disso veio de quando eu estava na escola, a CalArts** . Eu comecei a fazer aulas de teatro e um pouco de marionetes, o que ampliou meu horizonte de possibilidades em relação à animação, que era uma coisa que eu já estava fazendo. Eu estava interessada, mesmo a minha performance sendo na tela, em dar à animação um sentido mais físico. O intuito é fazer com que a animação se torne um pouco mais real ao mesmo tempo em que meu corpo se torna mais fantástico nesse estranho mundo de combinações ilusórias.
3. Como seu corpo é usado na performance? Qual a linguagem usada para torná-lo mais “fantástico”?
O meu trabalho envolve muita brincadeira com escalas. Por exemplo, a animação é uma cidade e eu ando nessa cidade. Sou um gigante andando na cidade. E eu penso que a animação tem essa propriedade de transformar o tempo. Uma coisa pode ser apressada ou tornada mais devagar. Então, o que significa para um corpo real estar nesse espaço? É como se as leis da física não regessem a ordem das coisas ou como se a gravidade não funcionasse, por existir essa forma fluida de o corpo se movimentar dentro da animação. Não sei se estou explicando direito. É difícil explicar porque é mais um sentimento.
4. Conte-nos um pouco sobre a CalArts?
A CalArts é uma escola incrível. Foi fundada por Walt Disney para ser a escola de animação para os animadores da Disney. E agora se tornou uma escola de artes completa, com cursos de dança, teatro, música, animação e outros. E eles realmente incentivam a colaboração entre as diferentes disciplinas. Então você acaba conhecendo os dançarinos, tem uma ideia nova quando conhece os músicos, e todos acabam te ajudando com o seu filme e isso é muito inspirador. Estar neste festival de animação reafirma em mim tudo isso, já que muitas pessoas aqui estiveram em CalArts, como Léa Zagury, uma das fundadoras do Anima Mundi A história da animação no universo da CalArts é muito profunda e eu fico muito feliz de ser parte disso.
5. Você produz as animações na sua performance? Qual o seu estilo preferido de animação, o que você mais gosta de fazer?
Eu estudei animação e eu me vejo primeiramente como animadora. A performance é uma coisa secundária. Eu realmente não quero ser conhecida como performista, sou tímida em relação a isso. Na animação eu uso mais after effects. Muita composição. Elementos de ação ao vivo combinados com colagens de imagens, como fotografia que eu tiro das ruas e incorporo.
6. Quais artistas inspiram você?
Alguém que realmente me inspira é Michel Gondry. O meu trabalho envolve uma espécie de montagem de quebra-cabeças. Uma constante tentativa de descobrir como as camadas vão trabalhar junto com o corpo e uma série de outras pequenas coisas que precisam ser encaixadas. Acho que o trabalho dele envolve também essa busca. E não podemos esquecer da música, é claro. As imagens no trabalho de Gondry se combinam em uma espécie de dança muito bonita. Além disso, o nível de exp
erimentação é bastante amplo.7. Você pretende mostrar, através do seu trabalho, que o olhar da animação pode ser ampliado e que novos suportes e estilos podem ser incorporados?
Não sei se é realmente isso que eu estou tentando mostrar. O meu trabalho envolve muito esse encaixar das peças do quebra-cabeça. Funciona como a junção de pequenas vinhetas. E eu espero que exista um arco narrativo, ou seja, que a audiência sinta que algo a conduz a algum lugar.
8. E o que a toca mais nesse trabalho? O que a move?
Acho que o essencial é realmente essa coisa de encaixar as peças do quebra-cabeça. E tem muitas coisas pelas quais eu acabo me encontrando fascinada, como cozinhar e olhar para fora da minha janela, coisas que me inspiram todos os dias, que eu posso agregar ao trabalho que estou desenvolvendo. Acredito que começa com imaginar a imagem e querer lidar com ela através da animação. Fazer vídeos e compor em cima deles. Uma espécie de colagem de várias camadas. Na performance, o corpo é parte da colagem que se compõem com a combinação das duas projeções para criar uma imagem.
9. Como tem sido a recepção do seu trabalho em outro países?
Eu tenho viajado bastante com a performance. Estive na França, Inglaterra, Beijing, Noruega, Canadá e é primeira vez na América do Sul e no hemisfério sul. A recepção tem sido ótima. Acho que por ser uma coisa muito universal, sem palavras. Trata-se de uma espécie de sentimento de felicidade, e isso pode ser traduzido em qualquer país.
10. Você conhece outros artistas que estejam rompendo a linha entre a animação e outras artes? Que estão inovando em estilo e suporte de mídia?
Parece que o mapeamento de projeções tem crescido bastante, com estas projeções em prédios, transformando-os. É muito interessante quando feito de forma certa, realmente transforma o exterior do prédio. PikaPika definitivamente faz parte disso. Eu também vi esculturas de zootrópios muito interessantes, elas simulam o 3D. Conheci Gregory Barsamian em um festival que estive e ele fez uma escultura realmente incrível, onde vários elementos rodavam muito rápido, o que era provavelmente muito perigoso, mas criava uma animação tridimensional bastante visceral. Isso é muito mais impactante do que simplesmente ver um filme em 3D com os óculos. Tenho a impressão de que os festivais de animação têm estado cada vez mais abertos. Interessados não só em filmes, mas filmes com instalação ou filmes acompanhados de performance. Há um movimento de abertura que traz uma coisa nova para a audiência. Isso é muito animador e interessante, principalmente se considerarmos que a maioria dos artistas que desenvolvem esse tipo de trabalho não são originalmente cineastas ou animadores. São artistas que acabam chegando à animação via escultura ou fotografia, ou qualquer outra coisa, uma espécie de artista de mídias digitais. É muito interessante que a animação possa ser vista de diferentes perspectivas.
* Brothers Quay, gêmeos americanos mundialmente conhecidos pelos seu trabalho com stop motion. Seu novo filme, Maska, está na sessão Curtas 16 do Anima Mundi 2011.
**Instituto de Artes da Califórnia. Uma busca por Cal Arts neste blog revelará várias atrações passadas envolvendo artistas formados por esta escola, como David Daniels (inventor do Strata Cut) e Stephen Hillenburg (criador do Bob Esponja).
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