sábado, 23 de julho de 2011

No corte da faca com David Daniels

Na última quinta rolou o Papo Animado com David Daniels. A conversa foi divertida e dinâmica, seguindo o fluxo da própria obra do animador. Ele dividiu conosco momentos da infância que determinaram em grande parte o artista que ele é hoje. Um olhar decisivo sobre um “bolo de massinha” pode ter mudado a forma como ele via e pensava o mundo. Como dito na entrevista, essa epifania demorou muito tempo para sair do estado de potência. Aproveitando-se de um período de férias sem responsabilidades, ele desenvolveu a técnica que compõem o Strata Cut. O primeiro trabalho experimental veio na produção do curta Buzz Box, um filme denso para quem é pego desavisado. O desenvolvimento desse projeto acabou sendo o principal campo de exploração de David. Depois do filme, ele fez alguns trabalhos como a coletânea Journey from a Melting Brain e Freaked, em Strata Cut. A necessidade de pagar as contas acabou afastando Daniels de seus blocos de massinha. Ele começou a trabalhar com animação em publicidade e acabou montando uma companhia, a Bent Image Lab.

Desde a década de 80, Daniels desenvolve a técnica do Strata Cut. São formas que incluem cálculo de velocidade do corte e grau do ângulo em que a faca vai estar para cortar a massinha. Cada variação, acrescenta o artista, é um resultado diferente na tela. Logo que chegamos nos deparamos com as incríveis peças coloridas feitas em massinha, distribuídas pela mesa. A mágica aconteceria bem diante dos nossos olhos. Dizem que todo bom mágico esconde seus segredos. Daniels não precisou fazer esforço para isso. A platéia ficou surpresa com a forma com que ele consegue pensar a massinha para realizar o Strata Cut. É preciso um outro nível de pensamento, uma forma diferente de abordar e ver o mundo. Cada um de nós enxerga o mundo por meio de lentes diferentes, mas é como se o artista enxergasse a partir de parâmetros estruturais completamente distintos. Não é a toa que nas cerca de três décadas que o Strata Cut existe, David Daniels nunca tenha conseguido ensinar a técnica a ninguém. Quem sabe os longos anos entre a infância e a faculdade, nos quais ele passou buscando um sentido para a epifania infantil, não tenham sido uma espécie de preparação necessária para que o cérebro do artista pudesse ativar os caminhos certos para lidar com aquele tipo de processo mental.

O incrível é ver como a abstração teórica é parte do trabalho de David Daniels. Não se trata só de fazer esculturas em massinha de forma diferente. Existe um conceito por trás do processo que percorre a forma como o artista pensa questões como espaço, tempo e a própria vida. Uma tentativa de espacializar o tempo, simulando a quarta dimensão em uma estrutura 3D. Seu intuito é tornar visível aquilo que não conseguimos ver em relação à nossa própria condição de existência. Segundo ele, somos todos cegos. A única coisa que podemos ver é o corte da faca, o agora. O Strata Cut é uma forma de tentar ver mais do que isso, de enxergar fisicamente o que ele chama de extrusão do ser humano no tempo. A extrusão é um processo mecânico através do qual é possível dar um molde alongado às substâncias. David se inspirou muito no trabalho de Peter Jansen para desenvolver tais conceitos de extrusão.

O artista está há muito afastado da produção de filmes em Strata Cut. Agora ele está trabalhando em um programa de computador, em uma tentativa de digitalizar a massinha, mas com novas possibilidades. Caso o projeto dê certo o que mais o anima é a que poderá contar em direções e com inclinações cada vez mais abertas. Ele disse que o festival e conversas com outros animadores despertaram a vontade de voltar a trabalhar filmes em Strata Cut.

David Daniels certamente é uma pessoa diferente, cujo fluxo de raciocínio dificilmente é acompanhado pelos demais. Ele brinca que nasceu duzentos anos antes do tempo certo. O artista parece falar uma língua diferente da do resto do mundo. O Strata Cut é o grito. A tentativa de comunicação. O som solto no vento à espera de um eco. Alguém aí se sente capaz de responder?

Para quem quiser saber mais sobre David Daniels, dê uma olhada nessa entrevista que ele mesmo recomendou!

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