A última masterclass com certeza foi um dos momentos mais emocionantes do Anima Fórum 2011, evento especializado voltado para os profissionais da animação. Mas mesmo nesse ambiente “executivo” a paixão sempre fala mais alto. Isso ficou nítido na palestra da Ryan Woodward, animador americano e artista de storyboard desde 1995. Ele trabalhou em longas como Ironman 2 e Spiderman 2 e 3 e deu uma aula sobre o processo de criação dos storyboards e animatics para longas-metragens. E não se esqueceu do sacrifício e da inspiração dedicados à criação de um curta-metragem autoral.Ryan Woodward já sabia que desenhar era o que ele queria fazer para o resto da vida desde pequeno. Outros já sabiam isso por ele também. Em um de seus cadernos, uma professora chegou a mandar um bilhete à mãe dele: “Ryan não presta atenção na aula. Ele desenha demais”. Em 1995, ele começou a procurar emprego na área de animação. Na época não havia muitas escolas especializadas na área. Os estúdios contratavam com base no portfólio de cada artista e já dentro da empresa eles desenvolviam suas habilidades. Ele passou a fazer parte da equipe da Warner, onde participou inicialmente do longa-metragem Space Jam. Na empresa absorveu ainda mais a paixão pela animação dos profissionais com quem trabalhava.
A indústria da animação começou a mudar, cada vez mais tecnologias eram incorporadas e agora desenhar bem não era suficiente, era preciso conhecimentos de ciência da computação e facilidade para mexer com as ferramentas. Ele sabia que precisava se transformar para acompanhar o processo, mas acabou descobrindo que seu coração estava no lápis e no desenho , optando por deixar os algoritmos de lado. Para continuar na indústria e continuar desenhando, Woodward percebeu que precisava mudar de área. Foi aí que começou a se interessar pela criação de storyboards e animatics, mesmo que não soubesse quase nada sobre eles. Saiu da WB e começou a procurar outros lugares, ao mesmo tempo em que tentava desenvolver as técnicas necessárias.
Para quem já desenhava “demais” desde pequeno, o processo não se mostrou muito difícil. Ele desenvolveu uma espécie de método para adaptar sua mente ao processo criativo da arte do storyboard. Ele destacou que uma das coisas mais importantes para o desenhista é ter sempre um caderno de rascunho, para desenhar aquilo que é visto pelas ruas ou até mesmo em casa. O objetivo do rascunho não é o aperfeiçoamento da técnica do desenho, mas sim estimular o artista a observar e documentar o maior número de situações possíveis. Assim, quando um diretor pedia para que ele desenhasse um homem em uma bicicleta, ele já teria uma memória na qual se basear. Dessa forma, o desenhista amplia seu horizonte de possibilidades de criação.
Outro ponto importante destacado por Ryan é a necessidade de despertar a parte do cérebro responsável pela criatividade e imaginação. Ele disse que costuma muitas vezes desenhar figuras a partir de modelos, em retratos realistas, que ele chamou de “acadêmicos”. Mas depois de ser regido pelo que os olhos vêem, é necessário deixar a imaginação fluir, com o coração e com o sentimento. “Gosto de poder interpretar o modelo de forma criativa”. Então ele desenha as mesmas figuras, poré
m em formas exageradas, diferentes, que nada condizem com a realidade. Assim, é ativada a parte de sua mente responsável pela criação e não só pela cópia. Em longo prazo, ele acredita que seu cérebro passa a ser muito mais reativo em momentos de demanda de criação animada. Ele acrescentou que sua experiência como professor de animação o fez perceber que quando há uma fidelidade profunda à perfeição da figura acadêmica, o artista pode acabar fechando as portas da imaginação, tornando o processo criativo desgastante e díficil. Para Woodward, desenhar deve ser uma busca pelos caminhos que, dentro do cérebro, permitem que você pense as coisas em freqüências diferentes.Mas todos esses ensinamentos só poderiam surgir de anos de prática. Após deixar a Warner, ele foi trabalhar na Sony, onde foi o artista de storyboard dos últimos dois Spiderman, dirigidos por Sam Raimi. Ryan conta que aprendeu muito com o diretor, uma vez que Raimi estava constantemente estimulando seu aprendizado. “O melhor tipo de diretor para se trabalhar é aquele que têm ideias e transmite suas sensações aos artistas de storyboard, deixando que eles também participem do processo criativo”. Raimi costumava chegar para Ryan e dizer: “tive uma ideia”, depois soltava algo completamente fantástico e emendava sempre com um “desenha isso pra mim?”. Essa forma de trabalhar é milhões de vezes mais divertida e estimulante do que receber o roteiro na mão e uma ordem de desenhar vírgula por vírgula do que está escrito, acrescentou.
Esse tempo trabalhando em constante comunicação com o diretor o fez perceber as características que marcam um bom artista de storyboard. Ele acredita que não é papel do desenhista julgar o que funciona ou não no filme, porque ele não tem a visão do todo tão aprofundada quantos os diretores. O importante é fazer justamente o contrário, dar suporte, estímulo e incentivar a expansão do pensamento daquele que dirige. A pessoa precisa pensar, agregar valor às ideias iniciais e sugerir novas. Mas sempre com o objetivo de somar ao que foi desenvolvido pelo diretor, nunca competir. E existe também o outro lado: o produtor. Os diretores não gastam muita massa cinzenta pensando em logística e orçamento,. É problema do produtor se preocupar com a viabilidade. Mas Ryan destaca que é importante ter bom-senso e conseguir equilibrá-lo com a criatividade para não tornar o trabalho da equipe de produção tão difícil.
Outra característica importante que um desenhista de storyboard deve procurar desenvolver é o pensamento da linha narrativa e da continuidade. Você pode fazer ótimos desenhos, dentro de cada quadro, mas é preciso que as cenas funcionem de forma harmônica e coesa, quadro a quadro. Para isso torna-se necessário conhecer cinematografia, saber como a câmera conta a história. Deve-se pensar também nos atores, reconhecer suas possibilidades e principalmente deixá-los participar do processo criativo. Em suma, o desenhista do storyboard é um artista do equilíbrio. Anda sobre a corda bamba sustentando pratos de louça branca, no qual resplandecem criatividade, desenho, narrativa e cinematografia.
Ryan Woodward busca esse equilíbrio profissional para desenvolver um bom trabalho nas produções de Hollywood. Mas existe também a busca pelo equilíbrio da alma, que diferente de muitos, ele não desistiu de buscar. “Eu me divirto muito trabalhando nesse lado comercial, mas chega uma hora que algo começa a incomodar aqui dentro e você sente que precisa fazer alguma coisa que seja realmente sua, antes que isso te domine”. Foram muitos os projetos desenvolvidos a partir dessa necessidade. Primeiro fez uma história em quadrinhos da qual se orgulha muito, mesmo não tendo feito sucesso. “Um dia meus netos vão me perguntar isso e eu vou poder dizer que já fiz uma história
em quadrinhos”. Chegou a fazer um curta sobre uma lenda do Havaí, terra natal de sua esposa. No seu último arroubo criativo, Ryan fez um dos curtas mais bonitos do Anima Mundi de 2011: Thought of You. A epifania de inspiração aconteceu em uma viagem de avião. Ele contou que estava se sentindo muito cansado física e emocionalmente pela quantidade de trabalho e o tempo que estava fora de casa. De repente começou a tocar a música Thought of You. Nesse momento ele soube que tinha que fazer algo com aquela música.Daí surgiu o curta Thought of You. Singelo, delicado, leve e dotado de um silêncio meio doce e ao mesmo tempo meio triste, a dança das figuras humanas desenhadas a lápis traduz a história de quem as vê. Ryan juntou várias de suas paixões: desenho, animação em 2D e dança contemporânea. “Eu fiz um filme para mim”, contou o artista. “É uma forma de tentar resolver questões internas. Mas quais são eu não divido com ninguém. O que eu quero é que cada um possa encontrar um pouco da sua vida dentro desse filme”.
A palestra acabou com o auditório inteiro aplaudindo o artista de pé. Não foram só as ótimas dicas sobre desenho de storyboard, nem só a beleza dos curtas que produz em busca de seu equilíbrio interno. Foi a reunião de tudo isso e mais um pouco, sintetizados em uma coisa: a paixão pela animação.
Confira no site oficial do artista o curta e o documentário sobre sua produção, além de outras informações sobre o projeto Conté Animated.
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